quarta-feira, 23 de julho de 2008

Capoeira - Patrimônio Cultural do Brasil

Depois de dar a volta ao mundo e alcançar reconhecimento internacional, a capoeira se tornou o mais novo patrimônio cultural brasileiro. O registro desta manifestação foi votado no dia 15 de julho, em Salvador, pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que é constituído por 22 representantes de entidades e da sociedade civil, e delibera a respeito dos registros e tombamentos do patrimônio nacional. O instrumento legal que assegura a preservação do patrimônio cultural imaterial do Brasil é o registro, instituído pelo Iphan. Uma vez registrado o bem, é possível elaborar projetos e políticas públicas que envolvam ações necessárias à preservação e continuidade da manifestação.
Estiveram presentes ao evento o ministro interino da Cultura, Juca Ferreira, o governador da Bahia, Jacques Wagner, o presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, o presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo, os embaixadores da Nigéria e do Senegal, além de autoridades locais. O presidente do Iphan anunciou a inclusão do ofício dos mestres da capoeira no Livro dos Saberes, e da roda de capoeira no Livro das Formas de Expressão. A divulgação e implementação dessa atividade em mais de 150 países se deve aos mestres, que tiveram sua habilidade de ensino reconhecida.
Segundo o ministro interino Juca Ferreira, a votação foi um momento de reparação em relação a esta prática afro-descendente. “Nós estávamos devendo isso aos mestres de capoeira, responsáveis por uma das manifestações mais plurais e brilhantes de nossa cultura”, afirma. Diversos grupos de capoeiristas e reconhecidos mestres vieram de várias regiões do Brasil para acompanhar a votação. Num encontro representativo da presença da capoeira no país e no mundo, eles realizaram uma grande roda em frente ao Palácio Rio Branco, simbolizando o triunfo da manifestação, que já foi considerada prática criminosa no século passado (chegou a ser incluída no código penal da República Velha), e agora é reconhecida como patrimônio cultural .
Um grande evento em homenagem à capoeira foi realizado no Teatro Castro Alves, onde artistas como Naná Vasconcelos - percussionista que ampliou as possibilidades sonoras do berimbau-, Roberto Mendes, Mariene de Castro, Wilson Café e Ramiro Mussoto exaltaram a importância da manifestação.
O pedido de registro da capoeira foi uma iniciativa do Iphan e do Ministério da Cultura, e é o resultado de uma ampla pesquisa realizada entre 2006 e 2007 para a produção de conhecimento e documentação sobre esse bem imaterial. Todo o levantamento foi sintetizado num dossiê final que compõe o processo de registro.
O inventário da capoeira foi produzido por uma equipe multidisciplinar de profissionais, em parceria com as Universidades Federais do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e a Federal Fluminense, sob a supervisão do Iphan. As pesquisas foram realizadas no Rio de Janeiro, Salvador e Recife, principais cidades portuárias apontadas como prováveis origens desta manifestação, e locais onde havia documentação a respeito.
Créditos: IPHAN.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mestre Ambrósio - fuá na casa de caBRal [1999]

Em seu primeiro press-release, divulgado antes mesmo do lançamento do primeiro disco, o Mestre Ambrósio declarava: “a proposta do grupo é trabalhar, de uma forma atualizada, a sua musicalidade nordestina”. Essa parecia ser a palavra de ordem da ebulição musical e cultural que tomava conta do Recife: atualização. Restava saber como cada banda iria realizar esta tarefa: conectar as diferentes tradições sonoras do Nordeste brasileiro com a linguagem do etnopop global, agora já transfigurada pela tecnologia/filosofia digital.
O pessoal mais ligado ao movimento mangue optou por uma estratégia de radical estranhamento (de tudo e de todos). Era como se trabalhassem “de fora”, não escolhendo de início uma base nordestina e/ou um ponto de vista internacional a partir dos quais suas combinações de ritmos e estilos (rap e maracatu, coco e dub) seriam produzidas. Já a opção do Mestre Ambrósio estava clara desde o princípio: era “de dentro”, do mais profundo conhecimento dos mestres brincantes do Nordeste, que o grupo iria desenvolver seu ataque pop.
As duas opções se equivalem, uma não é melhor que a outra, mas os resultados e métodos detrabalho – apesar dos objetivos comuns - são diferentes. No seu primeiro disco, o Mestre Ambrósio se inseria tão completamente nas “linhas evolutivas” de brincadeiras como o cavalo-marinho, o maracatu-rural ou o forró, que muitas vezes era difícil para o ouvinte perceber o que havia de diferente entre o que estava gravado e o que se pode escutar numa festa tradicional da zona da mata pernambucana. Em Fuá na casa de Cabral, essa dificuldade desaparece e a proposta do Mestre Ambrósio pode ser entendida claramente.
Não há nenhuma mudança de rumo ou estratégia. Há aprofundamento e amadurecimento das idéias anteriores. Os exemplos das canções do primeiro disco que foram regravadas neste Fuá tornam evidente o domínio que o Mestre Ambrósio ganhou sobre vários estilos da música nordestina, conquistando liberdade para fazer o que quiser com eles, mas sem precisar utilizar o recurso fácil de colocar uma bateria eletrônica tecno “em cima” para “modernizar” o tradicional. Zé Limeira, o maracatu-rural que no disco anterior duelava com uma guitarra elétrica, agora ganhou uma viola nordestina (sublinhando o tom repentista do samba-curto do vocal) tornando o resultado, ao contrário do que se poderia esperar, mais ousado e mais moderno (e ao mesmo tempo, o que é uma vitória e tanto, mais compreensível – não digo aceitável - para tradicionalistas). Só quem está muito “por dentro” do maracatu rural pode propor um “baque” como esse, tão heavy.
O Fuá todo é heavy. Mas não no sentido óbvio que o pesado pode ter. O segredo (e o acerto, e anovidade) está no método de produção. O desafio era não partir do sampler, não por nada contra o sampler, mas para testar um caminho diferente. As músicas foram gravadas em regime quaseacústico, quase-rural, quase pré-digital. Só depois dessa primeira fase é que todos os recursos computadorizados do estúdio entraram em cena, rearticulando o material gravado, amplificando detalhes, mixando o resultado da maneira menos convencional possível.
Então cada faixa faz o ouvinte, junto com o Mestre Ambrósio, reavaliar seu conhecimento sobre atradição musical nordestina, e impulsioná-la para o imprevisível. Caboco é maracatu-rural nocarnaval de Olinda, acentuado por uma guitarra que tanto pode ser classificada como zairensequanto como repentista, com vantagens para ambos os lados. Em Fuá na casa de Cabral, a batida de forró ganha marcação de merengue. Em Semen, a cantoria cai na batucada; em Vó cabocla ocaboclinho cai no cavalo-marinho; em Esperança, a guitarra faz o papel da rabeca para juntar-se a vocais de toré de índio caatingueiro e a uma gaita de caboclinho altamente progressiva. Já Pescador é uma ciranda da Jamaica, Chamá Maria é um forró dos Balcãs, e Pedra de Fogo é um samba de Cabo Verde.
A fala do Mestre Ambrósio, após a faixa de abertura do disco, deve ser escutada como uma carta de intenções: “vivo no mundo comprando, vendendo, trocando figuras.” O Mestre Ambrósio, nabrincadeira do cavalo-marinho, atua como um Hermes, um Exu, um ministro das informações, um mestre das comunicações entre as várias personagens/figuras, entre os brincantes e o público, entre as várias brincadeiras, mostrando como tudo está conectado. A música de Fuá na casa de Cabral realiza a mesma façanha. Do mais profundo do Nordeste, para o mundo, e de volta, e para todos os lugares novamente. A brincadeira é heavy e não tem fim. Ninguém pode com um fuá deste calibre (Hermano Viana).
Créditos: Som Barato

terça-feira, 8 de julho de 2008

Arraial do Pavulagem

Foto de "Lua..."

Registro do último arrastão do Pavulagem, no dia 06 de julho de 2008, que reuniu em torno de 25.000 (!) pessoas no cortejo pela Pte. Vargas e na Pça. da República. Linda foto!