Em seu primeiro press-release, divulgado antes mesmo do lançamento do primeiro disco, o Mestre Ambrósio declarava: “a proposta do grupo é trabalhar, de uma forma atualizada, a sua musicalidade nordestina”. Essa parecia ser a palavra de ordem da ebulição musical e cultural que tomava conta do Recife: atualização. Restava saber como cada banda iria realizar esta tarefa: conectar as diferentes tradições sonoras do Nordeste brasileiro com a linguagem do etnopop global, agora já transfigurada pela tecnologia/filosofia digital.
O pessoal mais ligado ao movimento mangue optou por uma estratégia de radical estranhamento (de tudo e de todos). Era como se trabalhassem “de fora”, não escolhendo de início uma base nordestina e/ou um ponto de vista internacional a partir dos quais suas combinações de ritmos e estilos (rap e maracatu, coco e dub) seriam produzidas. Já a opção do Mestre Ambrósio estava clara desde o princípio: era “de dentro”, do mais profundo conhecimento dos mestres brincantes do Nordeste, que o grupo iria desenvolver seu ataque pop.
As duas opções se equivalem, uma não é melhor que a outra, mas os resultados e métodos detrabalho – apesar dos objetivos comuns - são diferentes. No seu primeiro disco, o Mestre Ambrósio se inseria tão completamente nas “linhas evolutivas” de brincadeiras como o cavalo-marinho, o maracatu-rural ou o forró, que muitas vezes era difícil para o ouvinte perceber o que havia de diferente entre o que estava gravado e o que se pode escutar numa festa tradicional da zona da mata pernambucana. Em Fuá na casa de Cabral, essa dificuldade desaparece e a proposta do Mestre Ambrósio pode ser entendida claramente.
Não há nenhuma mudança de rumo ou estratégia. Há aprofundamento e amadurecimento das idéias anteriores. Os exemplos das canções do primeiro disco que foram regravadas neste Fuá tornam evidente o domínio que o Mestre Ambrósio ganhou sobre vários estilos da música nordestina, conquistando liberdade para fazer o que quiser com eles, mas sem precisar utilizar o recurso fácil de colocar uma bateria eletrônica tecno “em cima” para “modernizar” o tradicional. Zé Limeira, o maracatu-rural que no disco anterior duelava com uma guitarra elétrica, agora ganhou uma viola nordestina (sublinhando o tom repentista do samba-curto do vocal) tornando o resultado, ao contrário do que se poderia esperar, mais ousado e mais moderno (e ao mesmo tempo, o que é uma vitória e tanto, mais compreensível – não digo aceitável - para tradicionalistas). Só quem está muito “por dentro” do maracatu rural pode propor um “baque” como esse, tão heavy.
O Fuá todo é heavy. Mas não no sentido óbvio que o pesado pode ter. O segredo (e o acerto, e anovidade) está no método de produção. O desafio era não partir do sampler, não por nada contra o sampler, mas para testar um caminho diferente. As músicas foram gravadas em regime quaseacústico, quase-rural, quase pré-digital. Só depois dessa primeira fase é que todos os recursos computadorizados do estúdio entraram em cena, rearticulando o material gravado, amplificando detalhes, mixando o resultado da maneira menos convencional possível.
Então cada faixa faz o ouvinte, junto com o Mestre Ambrósio, reavaliar seu conhecimento sobre atradição musical nordestina, e impulsioná-la para o imprevisível. Caboco é maracatu-rural nocarnaval de Olinda, acentuado por uma guitarra que tanto pode ser classificada como zairensequanto como repentista, com vantagens para ambos os lados. Em Fuá na casa de Cabral, a batida de forró ganha marcação de merengue. Em Semen, a cantoria cai na batucada; em Vó cabocla ocaboclinho cai no cavalo-marinho; em Esperança, a guitarra faz o papel da rabeca para juntar-se a vocais de toré de índio caatingueiro e a uma gaita de caboclinho altamente progressiva. Já Pescador é uma ciranda da Jamaica, Chamá Maria é um forró dos Balcãs, e Pedra de Fogo é um samba de Cabo Verde.
A fala do Mestre Ambrósio, após a faixa de abertura do disco, deve ser escutada como uma carta de intenções: “vivo no mundo comprando, vendendo, trocando figuras.” O Mestre Ambrósio, nabrincadeira do cavalo-marinho, atua como um Hermes, um Exu, um ministro das informações, um mestre das comunicações entre as várias personagens/figuras, entre os brincantes e o público, entre as várias brincadeiras, mostrando como tudo está conectado. A música de Fuá na casa de Cabral realiza a mesma façanha. Do mais profundo do Nordeste, para o mundo, e de volta, e para todos os lugares novamente. A brincadeira é heavy e não tem fim. Ninguém pode com um fuá deste calibre (Hermano Viana).
Créditos: Som Barato